
Por Misael Nóbrega - A cidade de Patos amanhece hoje com um anúncio que, à primeira vista, parece histórico: a inauguração do tão esperado Teatro Municipal. Um equipamento cultural que deveria simbolizar o avanço, o investimento na arte, na formação de plateias, na valorização dos nossos artistas.
Mas, antes que se acendam as luzes do palco, é preciso que também se acenda a luz da reflexão. O teatro que se anuncia hoje não nasce de um gesto simples de entrega. Ele carrega nas paredes o peso de mais de uma década de promessas. Foram anos de idas e vindas, de empresas que abandonaram a obra, de sucessivas suplementações de recursos, de licitações refeitas, de ordens de serviço anunciadas como quem reinventa o começo de algo que nunca chegava ao fim. Durante muito tempo, o que deveria ser motivo de orgulho se transformou em constrangimento público, uma ferida aberta no coração da cidade.
E agora, curiosamente, a pressa. A inauguração ocorre no exato momento em que o prefeito Nabor Wanderley se prepara para deixar o cargo, com os olhos voltados para uma disputa ao Senado. O tempo da política eleitoral parece não ser o mesmo tempo da responsabilidade administrativa.
Jogamos luz não sobre a inauguração em si, e sim sobre o que, de fato, está sendo entregue. Um teatro não é apenas um prédio com paredes erguidas. É estrutura, é equipamento, é acabamento, é condição plena de funcionamento. E, segundo informações, ainda há muito por fazer. Faltam elementos essenciais para que o espaço cumpra a sua finalidade de forma digna e completa.
Inaugurar inconcluso é, no mínimo, inverter a lógica da boa gestão. É transformar um ato que deveria ser de celebração em um gesto de conveniência. É entregar à população uma obra que ainda não pode ser plenamente usufruída, enquanto se tenta colher os dividendos políticos.
A cultura de uma cidade não pode ser tratada como cenário de campanha. O teatro não pode ser reduzido a pano de fundo para um discurso de despedida. Ele deveria ser entregue pronto, equipado, funcionando, à altura do povo de Patos e da sua rica produção cultural.
Editorial do jornal Notícias da Manhã da rádio Espinharas.
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